Desapega! Desapega!

O texto é antigo mas eu continuo no exercício constante do desapego.

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Um pra loja, dois pra mim… Seis pra mim, um pra loja…

A conta é quase essa. Seria cômico se não fosse trágico. É que a gente escolhe os tecidos, deixa eles cheirosos, passa, borda, corta, costura e de repente aquela almofada que era para ir pra loja começa a combinar desesperadamente com o sofá da sala. E ela combina com o sofá, com você, com a meia do seu marido… O que fazer?

Já foram tantas as peças que fotografei e que nunca coloquei na minha loja. Tantas! Pra algumas eu arrumava a cruel desculpa do “acho que posso fazer melhor”, para outras eu nem arrumava desculpa, simplesmente não vendia porque a achava fora de contexto.

Se eu tivesse uma varinha mágica bateria na minha cabeça até entrar nela uma fórmula de conciliar meu processo criativo com o comercial. Às vezes eu quero fazer um ursinho, outras quero bordar guardanapos, sem contar as tardes em que quero fazer alguma coisa sem ter a mínima ideia do que vai ser quando eu a terminar. Essas são as peças que eu mais gosto.

Aí as pessoas dizem que é preciso ter foco e esse é o meu pior castigo. Fiquei na fila do foco umas duas encarnações mas ainda não consegui evoluir nesse quesito. Já comecei toalhas que viraram travesseiros, colchas que viraram bolsas e até um jogo americano que ficou muito mais bonitinho de tapetinho de banheiro. Ou seja, onde tá meu foco? Por favor, não responda. Isso pode me magoar.

Mas daí que eu vejo graça em criar assim, nesse “desprocesso”, íííí! O corretor ortográfico não reconheceu meu “desprocesso”, mas não o retiro, não quero tirar porque é exatamente assim que eu me sinto. Não é que eu não tenho um processo de trabalho com começo, meio e fim. Eu posso ter, mas eu não quero. E olha que sou metódica. É um contrassenso eu sei. Sou um ringue em constante batalha, de um lado a vontade de voar e do outro o preço exorbitante da fruta do conde, do salsão, da jabuticaba… De um lado estão as ideias e de outro, o cara do contas a pagar. Pô, a jabuticaba tá quase vinte mangos a bandejinha. Fala sério!

E pra ajudar você, que como eu sofre desse mesmo mal, aqui vão cinco dicas para evitar o doloroso momento de despedida entre você e sua obra:

1. Evite estampas que combinem com aquela colcha in-crí-vel que você está louca para colocar na sua cama, mas morre de medo de usar porque seu marido vai arrancá-la pré historicamente antes de dormir assassinando fuxico por fuxico.

2. Fuja correndo de combinações de rendas, sinhaninhas, botões e outras fofuras que arranquem de você suspiros ou onomatopeias como: óim, ahhh, óóóúm! Se você não conseguir se conter, dê um pulo na cozinha e coma um pudim.

3. Casa de ferreiro espeto de pau, né? Mas também não precisa fazer bem uma coisa que você está precisando desesperadamente como, por exemplo, um novo pegador de panelas. Se a vontade de pertencer a você começar a falar mais alto, pare tudo e vá bater um bolo.

4. Para se livrar de todo e qualquer perigo escolha uma cor que você não ame de paixão. Pra mim o marrom é tiro e queda.

5. E se você já estiver completamente apaixonada pela peça e viver sem ela já for praticamente impossível, pense “na bonita” brilhando no caderno de consumo de um importante jornal, você dando entrevistas em programas de TV… pense e se distraia até furar o dedo e a vontade de ficar com ela passar.

Se mesmo passando por tudo isso aí em cima, você ainda quiser ficar com sua peça, fique. Esqueça tudo, pare tudo, coma um chocolate, o pudim e comemore o seu direito de poder ter tudo que você fizer e quiser. Isso não é genial?

 

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