Uma Coisa Que Era Outra

Ao longo da minha vida me deparei com muitas coisas que eram outras. Desde um ovo de codorna cozido disfarçado de mussarelinha de búfala em local de honra num buffet de self service, até aquela pessoa que a gente achava legal, mas que no fundo não era tão legal assim. A gente se decepciona, acho que na mesma quantidade que decepcionamos os outros. A real é que nunca sabemos o que estão esperando de nós para dar o exato, sem decepcionar.  E foi assim no restaurante de ontem, eu esperava exatamente meia porção de frango frito com pele, sem osso, a milaneza e com polenta frita. Sim, ontem foi dia de lambança. Como diz o pessoal de Passione, “me ne frega”

E o bonitinho chegou, despedaçado, desossado, frito, borbulhando. Entre uma mordida e outra era possível sentir aquela culpa entupindo nossas veias elevando nosso colesterol as alturas.  Ah! Que delícia. Por favor, me passe a polenta. Sim, a polenta, e ela era igualmente frita, bem fritinha, dentro molinha, coberta de queijo ralado, bem ralado e parmesão. Bem parmesão. Pra decorar o prato que deve conter várias cores; uma porção de arroz e outra de feijão, apenas duas colheres de sopa de cada. Sim, eu quero continuar usando minha coleção 38.

O papo estava delicioso, ao lado de uma prima adorada e o maridão que encarou uma fejuca. Almoçamos, papeamos e papeamos muito enquanto almoçamos. E logo foram embora meus três pedaços de frango pescados um de cada vez e minha única polenta frita (nenhuma a mais)…

– Por favor, a conta.
– Pode embrulhar? – perguntou o garçom.
– Tudo, embrulha tudo, principalmente o frango e a polenta. – instrui.

O melhor investimento para quem come apenas um terço do que pede é saber que poderá levar o segundo restante pra se refestelar nos dias subsequentes. É a marmitinha pós-restaurante tão politicamente justa. E viva as embalagens pra viagem!

No caminho até o carro a sacolinha era pesada. Tudo que eu precisava para o jantar estava ali, pronto, prontinho. Era só montar o prato repeteco e tacar no microwave. Enquanto todos caminhavam até o carro eu pensava em slow no meu prato do jantar.

A tarde passou e então a hora do jantar foi chegando, maridão chegou junto com a minha fome. O plano? Cada um faz seu prato e taca no microwave. Topado! Maridão concordou. Da sala eu escutei.

– Poutz! Veio um molho de camarão.
– Como assim um molho de camarão? – e corri pra cozinha, nem cansei porque ela é bem pertinho.

Tenho por princípio duvidar do meu marido em algumas situações, ele costuma me pregar peças como: não adianta colocar biquíni está chovendo (e o sol brilhando além da persiana fechada), ou “Ah que pena, o último número 36 era amarelo ovo. Você gosta né? (e ao abrir a caixa encontrar o par de tênis da cor que eu queria)… Isso tudo pra tentar explicar que no começo duvidei do tal molho de camarão, mas ao reconhece-los boiando numa espécie de molho de tomate enfiei meu dedo e constatei. É bobó! Vamos fazer um ovo.

Ninguém que passou o dia inteiro sonhando com um suculento pedaço de pecado frito em formato de frango com polenta pode se conformar com um inocente bobó de camarão.

E então comemos ovo: maridão foi de mexido e eu de frito (com a gema dura)

Pra coleção de decepções de uma coisa que é outra coisa era uma vez a identidade secreta de um bobó de camarão que passou a tarde como frango frito.  Sacanagem!

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14 comentários

  1. Sabe que esses dias, comprei uma sapatilha pela net ( eu e minha compulsão desenfreada de comprar coisas pela net, isso deprecia minha pão durice tão honrada). Pois é, não comprei exatamente a que eu mais gostei, porque estava esgotada no meu número, comprei uma outra que eu tinha gostado um tiquinho menos, mas tinha que aproveitar o preço de banana. Então, eis que chega a sonhada caixinha e a surpresa ao abrir: me mandaram modelo errado. Qual modelo? Exatamente aquele que eu queria a priori e nao tinha meu número. Chorei de alegria e fiquei me sentindo a pessoa mais sortuda ( com uma sorte esquisita) desse mundo, até a semana seguinte qdo bateram no meu carro, mas tudo bem rs…
    O “uma coisa que era outra coisa” no meu caso foi bom.. é fofa minha sapatilha, prazeres fúteis rules rs! beijo queridona, saudades docê!

  2. a minha mãe guardava feijoada naqueles potes de sorvete, saca?
    aí eu ia seca no congelador, sonhando com um sorvetão de choco (babando de vontade) e tanãããããããã!!! abria o pote e era feijão… rsss

    beijinhos, amora.

  3. Adorei, prima! E posso imaginar vcs duas falando o tempo todo e só parando pra encher o bucho de franguinho com polenta! E se a história do camarão fosse comigo eu desmaiava pq vc bem sabe o quanto sou alérgica a esse bicho. E salve Nossa Senhora do Colesterol! Rogai por nós! Bjos

  4. Olá Mazinha! Adorei também!
    Isso me fez lembrar um Jantar (nos bons tempos!) que eu tive com os “brothers” Cid e Ciro em uma Churrascaria. Lá pela metade do jantar passou perto de nós o carrinho da sobremesa, e eu vi que havia apenas um pedaço de torta de Limão (que eu adoro!). Eu – guloso – chamei o garçom e pedi para me “reservar” aquele pedaço de torta de Limão para quando chegasse o momento da sobremesa. Bem, continuamos a nos entupir com os nossos pratos até não agüentarmos mais, pedimos para embalar os restos para os “dogs” do Cid, chamamos a sobremesa (e aí veio no carrinho uma nova torta de Limão), café, conta e “bora” para a casa do Cid. Chegando lá, chamamos o “Chef” e o “Tadeu” (os dois Dachshund do Cid), pois tinha “carninha” para os dois.
    Ao abrirmos a embalagem tinha aquele pedaço de torta de Limão que eu tinha “reservado”!
    Foi hilário!
    Beijo grande!

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